Da cadeia para o mundo

José Horta Manzano

Entre surpreso e incrédulo, o mundo recebeu a notícia de que Lula da Silva tinha dado entrevista à imprensa.

– Entrevista? Como assim? Mas ele não estava preso até outro dia?

– Pois ainda está. Mas o Brasil, sacumé, é um país que às vezes corre fora dos trilhos. Preso pode dar entrevista. Depois do Lula, dá pra imaginar um punhado de grão-condenados fazendo fila pra aparecer diante dos holofotes.

– Vão permitir que outros deem entrevista também?

– Se permitiram a um, não vejo como poderiam negar a outros. Quem se habilitar já pode começar a fazer fila.

Esse diálogo é imaginário. Mas não fantasioso. Fico realmente preocupado ao pensar que Marcola, Eduardo Cunha, Fernandinho Beira-mar e outros meliantes podem exigir o mesmo tratamento. Sempre haverá algum órgão de imprensa interessado em colher a entrevista. Já pensou?

Voltando à entrevista do Lula, foi particularmente edificante o trecho em que ele diz que essepaiz está sendo governado por «um bando de maluco». (Já reparou que Lula da Silva nunca pronuncia o nome dessepaiz? Freud deve poder explicar.) Pessoas sensíveis devem ter se sentido incomodadas com a violência das palavras proferidas por alguém que, afinal, já foi presidente da República. Não é comum. Bom, também não é comum um ex-presidente estar encarcerado por corrupção. Talvez isto explique aquilo.

Pouco comum também foi a resposta do atual presidente. Irritado, doutor Bolsonaro retrucou que mais valia o Brasil estar sendo governado por um bando de loucos do que por um bando de cachaceiros. Touché! Impressionante mesmo é o nível do palavreado dessa gente – tanto os loucos quanto os cachaceiros. Tudo farinha do mesmo saco.

Fiquei curioso em descobrir como a imprensa internacional tinha dado a notícia, em especial como tinham traduzido a expressão ‘bando de maluco’.

Os órgãos de língua francesa foram unânimes: disseram todos que o Brasil era governado por «une bande de fous». É tradução ao pé da letra.

A mídia de língua inglesa foi mais variada. Alguns, como The Guardian, traduziram por «lunatics». Outros, como o Washington Post, preferiram «crazy people». A edição inglesa de France 24 foi mais elaborada. Optou por «gang of madmen» – gangue de gente louca.

Os castelhanos também foram sortidos. TeleSur, a tevê de Maduro, tascou «una banda de locos». O Portal Notimerica foi mais sóbrio: «un puñado de locos». E o argentino Clarín escolheu uma formulação mais coloquial: «una banda de chiflados» – um bando de gente de raciocínio perturbado.

Antes, os cachaceiros. Agora, os loucos. Essepaiz está bem arrumado.

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