Polícia do Pensamento Único

José Horta Manzano

Doutor Moro engoliu um enorme sapo estes dias. Vamos resumir o drama. Embora pouco se divulgue sobre essas instâncias, o Executivo está rodeado de quase 50 diferentes grupos de aconselhamento. São conselhos, comitês ou colegiados compostos por figuras da ‘sociedade civil’, como se costuma dizer. Em princípio, a ideia é boa. Trata-se de esforço, iniciado 80 anos atrás e reforçado nas últimas décadas, de trazer a ‘voz do povo’ pra perto do presidente.

Certos conselhos têm poder regulatório – editam normas com força de lei. Outros são meramente consultivos e se limitam a sugerir o bom caminho. Todos eles são compostos de personalidades livremente nomeadas pelo presidente em pessoa ou por seus ministros. Para redesenhar o colegiado do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, órgão que está sob responsabilidade do Ministério da Justiça, doutor Moro reservou um lugar de suplente a uma senhora de nome desconhecido deste blogueiro e, mui provavelmente, também do distinto leitor. Parece que a nomeada nutre simpatia pelas ideias de esquerda. Sempre alerta, a Polícia do Pensamento Único teve conhecimento disso e saltou sobre a ocasião. O primeiro-filho tratou de açular as redes sociais para amplificarem veemente protesto.

Limitado pela costumeira dificuldade de sopesar e avaliar as consequências de seus atos, doutor Bolsonaro cedeu aos apelos filiais e determinou que a nova integrante fosse ‘desconvidada’. Onde é que já se viu incluir num conselho uma voz dissidente? Conselheiro só é bom se der os conselhos que a gente quer ouvir, ora essa! Num surpreendente acesso de humildade, doutor Moro aquiesceu. A moça foi dispensada antes de assumir. Os bolsonarinhos hão de ter entrado em êxtase com o reforço de poder que o pai lhes garantiu. Já o Brasil não tem motivos pra pavonear.

O país saltou da panela pro fogo – é como minha avó descreveria a situação. Cansados de guerra, os brasileiros decidiram mandar pra casa o lulopetismo e sua coorte de trambiques e rapinas. De fato, estava mais que na hora. No entanto, pra pôr no lugar, quem estava à mão é doutor Bolsonaro, desconhecido do grande público. Se não se pode chegar ao extremo de suspirar que o regime antigo era melhor, há que constatar que o atual tem deixado a desejar. Até o mais fanático adepto do bolsonarismo, se intelectualmente honesto for, concordará. Há muito chiado na linha.

Perguntar não ofende: se todos os integrantes de cada grupo de aconselhamento tiverem visão uniforme, seja qual for o fato, pra que serve o grupo? Se todo debate de ideias é vedado, abrindo alas para o pensamento único, melhor será dissolver todos os conselhos e mandar todo esse pessoal pra casa. Economiza-se no pagamento de jetons.

Mas nem tudo é ruim. Felizmente contamos com doutor Hamilton Mourão, o vice-presidente. O homem tem boa formação, cultura acima da média palaciana e, sobretudo, bom senso. Tendo sido eleito pelo povo em dobradinha com o titular, não é ministro. Não deve explicações a ninguém e é indemissível. Em mostra explícita de equilíbrio, declarou à revista Valor Econômico que, com o sapo engolido por doutor Moro, o Brasil é que sai perdendo. Doutor Mourão tem a (rara) qualidade de falar claro. Dá nome aos bois. Disse que esse tipo de política é nefasto para o Brasil. Você perde todas as vezes em que não se puder sentar ao redor da mesa com interlocutor que professe ideia divergente da sua – foi a essência do que declarou.

Ainda bem que temos pelo menos uma voz discordante em palácio. Nem tudo está perdido.

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