Guerra nas Estrelas ‒ versão século 21

José Horta Manzano

No início dos anos 1980, a tensão entre as duas superpotências andava pelas alturas, com a atmosfera carregada de eletricidade. Em 1983, Ronald Reagan, presidente dos EUA, lançou sua Guerra nas Estrelas, programa de armamento militar. O nome oficial era Iniciativa Estratégica de Defesa ‒ SDI, na sigla inglesa.

No oficial, o objetivo era dotar o espaço de um cinturão de armas sofisticadas, aptas a defender os Estados Unidos de um ataque nuclear proveniente da Rússia. No paralelo, supõe-se que o aspecto militar fosse apenas fachada. O programa era bem mais astucioso. A intenção era passar uma rasteira na já combalida economia da União Soviética.

A esperteza deu certo. Ao se dar conta de que Washington tinha a intenção de militarizar o espaço, Moscou não quis ficar pra trás. Subtraiu bilhões de rublos ao orçamento do país para torrá-los em projetos militares. Poucos anos bastaram para mandar ao chão a economia soviética. Veio a época das longas filas de gente decepcionada à porta de supermercados vazios. Esse desalento popular preparou o terreno para o fim do regime comunista e da própria União Soviética.

Faz duas semanas, Donald Trump, em pronunciamento impactante, anunciou que seu país estava se retirando de um tratado militar concluído com a Rússia trinta anos atrás. Com a retirada dos EUA, o tratado deixa de existir, pois eram apenas dois os países signatários. O acordo era um marco no desarmamento. Tratava da redução de mísseis de curto e médio alcance. Com o desaparecimento do tratado, os EUA se veem livres de aumentar sua produção de mísseis e de instalá-los onde bem entenderem ‒ inclusive nas cercanias da Rússia, caso os aliados europeus consintam.

Vladimir Putin, dando sinais de que compra a briga, exprimiu publicamente seu temor de que esse gesto americano conduza a nova corrida armamentista. As mesmas causas costumam produzir os mesmos efeitos. Nos anos 80, a Guerra nas Estrelas de Reagan levou a URSS a despender grande esforço financeiro para acompanhar a corrida. Quarenta anos depois, a atitude belicosa de Trump periga levar a Rússia a gastar o que tem e o que não tem para tentar manter o status de segunda potência militar do planeta ‒ diante de uma China que ameaça surrupiar-lhe a classificação.

Para a Rússia, a guerra está perdida antes de começar. Diante do americano, o PIB russo (1,7 trilhões de dólares) é raquítico. O PIB dos EUA é dez vezes maior. Se Putin topar realmente o desafio, vai abrir caminho para a desintegração da economia de seu país.

Não sei que razões terão levado Mr. Trump a abandonar o tratado de quarenta anos atrás. Atabalhoado (e mal aconselhado), é bem capaz de ter simplesmente dado uma cabeçada a mais, sem medir consequências. Como diz o outro, atirou no que viu e acertou no que não viu.

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