Convite

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Certa vez participei de uma vivência terapêutica muito interessante. As pessoas presentes, sentadas em círculo no chão, eram estimuladas a olhar para aquela que estivesse imediatamente à sua frente e imaginar seu nome e sua profissão, baseando-se tão somente na aparência, tom de voz e postura corporal. Além de muito divertida, essa experiência mostrou ser também muito reveladora – não tanto pelos acertos e erros nas projeções feitas (que propiciavam boas gargalhadas), mas principalmente pelo que evidenciava a respeito dos preconceitos, estereótipos e valores que povoam nosso próprio universo mental.

Ontem à noite, assistindo a um pronunciamento do ministro Levy, tive um súbito insight. A postura daquele homem, seu olhar cansado, sua voz baixa e seu discurso lento e cuidadoso, como o de quem procura causar o menor impacto negativo possível com o que tem a dizer, evidenciavam sua verdadeira profissão: agente funerário. Podia até visualizá-lo sugerindo um determinado padrão de caixão que supunha estar dentro do orçamento da família e cuidando em fazer pequenas pausas para auscultar se sua indicação era recebida com agrado ou desagrado.

Terapia 1A fantasia me deliciou e decidi estendê-la para outras figuras públicas que têm frequentado o noticiário nacional. Dei tratos à bola para escapar dos parâmetros de estilo de vida já conhecidos e compus os seguintes personagens:

Interligne vertical 14Dilma
Gosta de ser chamada de Dona Terezinha. Contadora de estórias e agente de disciplina num acampamento de férias juvenil. Doceira de mão cheia, olhar curioso e bonachão, preocupa-se em agradar, mas sem abrir mão do desejo de ser respeitada e obedecida.

Interligne vertical 14Lula
É conhecido como Manezinho da Embolada, graças a seus dotes de cantador. Controlador de um salão de bingo. Responsável pela recepção dos convidados, pelo anúncio dos premiados e pela confraternização que segue a entrega dos prêmios. Gosta de se destacar no trabalho mas, na vida privada, é um tanto taciturno e resmungão.

Interligne vertical 14Cunha
Seu nome é Ricardo. Corretor de imóveis de alto padrão, apesar da infância pobre e do baixo traquejo social. Chama a si todas as responsabilidades pelo atendimento pleno dos clientes e esforça-se por demonstrar alta credibilidade, expertise técnica e bom gosto.

Interligne vertical 14Haddad
Amélio é adestrador e passeador de cães. Tem muita experiência acumulada com cachorros difíceis, porte atlético e muita paciência para lidar com filhotes, mas não consegue disfarçar sua desesperança em termos de evolução na carreira profissional. Adoraria poder jogar tudo para o alto, mas falta-lhe energia para recomeçar. Pondera se, afinal, já não estaria em tempo de começar a adestrar os donos dos cães-clientes.

Interligne vertical 14Renan
Prefere ser chamado pelo sobrenome, Machado. Agenciador de modelos e gigolô aposentado. Não gosta de frequentar eventos sociais, preferindo envolver-se com as tratativas comerciais e com o controle disciplinar de suas contratadas. A vida o endureceu um pouco para se envolver com os segredos de alcova.

Interligne vertical 14Celso Mello
Padre Gérson é capelão de uma igrejinha de fazenda e responsável pela doutrinação religiosa dos filhos dos peões. Adora contar parábolas a seus pequenos fiéis, mas sente-se estimulado mesmo quando é convidado a fazer parte dos almoços de domingo na casa grande. Empenha-se com afinco em dissimular a tentação de ceder aos pecados da gula e da luxúria.

Interligne 18b

Terapia 2O cansaço que experimentei ao final de algumas horas me fez interromper o jogo de fabulações, embora eu ainda sinta o desejo de explorar outras possibilidades.

Em função disso, quero convidar a todos a me ajudarem com suas percepções a compor o perfil psicológico de outros nomes emblemáticos do cenário nacional e internacional. Aqueles que aceitarem o desafio certamente vão poder se dar conta do quanto este jogo é capaz de estimular nossa sensibilidade, nossa criatividade e nosso senso de humor.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

3 pensamentos sobre “Convite

  1. – Deputada Maria do Rosário –
    Dona Maria Sandra Rosa Madalena protagonizou-se em cidades circunvizinhas da região de Círculo, cidade portuguesa fronteiriça com a metrópole Lugaralgum, no estado que leva o mesmo nome. Tamanha popularidade ela alcançou como carpideira, essa difícil profissão de chorar em velórios. Encarou sempre com zelo e profissionalismo esse desafio em algumas épocas de epidemias que dizimaram povoados inteiros naquelas paragens. Foi dito que um famoso comendador popularizou a frase: “se eu morrer, quero ser chorado pela Maria”.

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    – Silvio Santos –
    Senor Abravanel, carinhosamente chamado de Senhor dos Anéis, foi o juiz de paz que entrou para o livro dos recordes como aquele que mais casamentos realizou e, inclusive salvou, até a sua aposentadoria. Dentre os casais que conseguiu ajudar para evitar que houvesse separação conjugal, houve o caso de um agricultor que aceitou de um comerciante judeu (neste caso, o sogro) um tipo de dote muito especial, mesmo já tendo se passado mais de uma década de casamento. Foi ajustado, sob a bênção do Senhor dos Anéis, que ele ficaria também com a irmã gêmea da esposa (ambas tinham 38 anos nessa época) passando os três a conviverem sob o mesmo teto. Assim, já que a queixa era a de que a antiga esposa roncava a noite toda, o cansado marido teria como mandá-la dormir nas dependências dos empregados sem perder o privilégio de poder abrir os olhos e ver a “belezura” que sempre foi sua musa da juventude.

    :::::::::::::::::::::::

    P.S. ::: Acho que a profissão do Renan, no texto, pode ser mesmo essa, pois explicaria o visual capilar bem cuidado,

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  2. François Hollande
    Propretário de pequeno restaurante no interior, do qual também é cozinheiro, tem dificuldade em livrar-se do apelido que lhe pespegaram desde criança: «Petit François». É baixinho, meio gorduchinho, mas tem boa mão na lida com panelas e frigideiras. Vem gente de longe provar seus acepipes. Petit François sempre tem uma palavra amiga pra receber cada visitante. O cardápio não é muito variado, mas a falta de diversidade é compensada pela qualidade constante.

    Angela Merkel
    É dona Ângela, professora primária. Trabalhou muitos anos, muitos anos se passaram, passou da hora de se aposentar, aposentar-se não está em cogitação, cogita levar adiante enquanto puder. Se puder. O olhar denuncia cansaço, mas ela não quer largar o osso apesar dos apelos constantes do marido. Tem receio da falta que o ordenado vai fazer. Odeia ser chamada de tia. Quem fizer isso arma briga na certa.

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