Vai ter copa

José Horta Manzano

Anda mal das pernas a imagem de seriedade das instâncias dirigentes do futebol mundial. João Havelange, que foi presidente da Fifa durante um quarto de século, foi discretamente despachado ao ostracismo já faz alguns anos. Um nome a esquecer.

Ricardo Teixeira, que dirigiu a Confederação Brasileira de Futebol durante 23 anos ― por sinal, aparentado com o figurão nomeado mais acima ― foi corrido de seu pedestal a toque de caixa sob acusação de roubo e corrupção da pesada.

2010: Blatter e um figurão catari

2010: Blatter e um figurão catari

Sepp Blatter, atual número um da Fifa, é olhado com desconfiança, embora nenhum caso escabroso tenha vindo a público. Por enquanto.

Talvez no intuito estratégico de adiantar-se às más línguas, Herr Blatter andou declarando, faz algumas semanas, que a designação do Emirado do Catar como sede do Campeonato Mundial de Futebol de 2022 foi um erro.

Erro? Em que sentido? Se a escolha daquela minúscula tripinha de areia desértica foi decidida pelo voto dos delegados de todos os países-membros, onde está o erro? Será que, como se costuma dizer dos eleitores brasileiros, os membros da Fifa também não sabem votar? Coisa mais esquisita.

Ao se dar conta de que seu pronunciamento havia caído mal, Herr Blatter foi mais além e desvelou o fundo de seu pensamento: o voto havia sido um jogo de cartas marcadas. Os donos do Catar ― sim, aqueles miniestados têm dono! ― haviam cooptado delegados mais dóceis e melado a decisão. Pegou mal pra burro.

A denúncia de malfeitos vários envolvendo nossa «Copa das copas» ― superfaturamento, desorganização, atraso, bagunça, descaso, roubo, desleixo, trapaça ― não podem ser atribuídos automaticamente à Fifa. No entanto, é inegável que a instância máxima do futebol mundial sai respingada. No mínimo, aparece na foto como conivente, se não como cúmplice.

A série de acusações continua. O episódio mais recente nos vem pela imprensa britânica deste domingo 1° de junho. Entre outros, o Sunday Times, o Guardian e o Independent trazem artigos acachapantes sobre denúncias de propinas pagas pelo Catar com o objetivo de vencer a disputa pela atribuição da Copa de 2022.

2010: Atribuição ao Catar do direito de sediar a Copa 2022

2010: Atribuição ao Catar do direito de sediar a Copa 2022

Havelange, Teixeira, Blatter e a «Copa das copas» já causaram estrago considerável à reputação da Fifa. A instituição não sobreviveria à avalanche de denúncias que se anuncia. Daqui até a Copa do Catar ainda faltam 8 anos! O mais provável ― e o mais acertado ― é que a escolha do emirado seja impugnada e que se vote de novo. Não vejo outra maneira de evitar o desaparecimento da Fifa. Se o presidente da entidade declarou que um erro foi cometido, a única saída é corrigi-lo enquanto é tempo.

Quanto à nossa «Copa das copas», infelizmente é tarde demais para enjeitá-la. Sinto muito pelos black blocs, mas… vai ter copa. Sim, senhor.

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