Inadequação vocabular ― 4

José Horta Manzano

Esta chamada do Estadão deste 17 dez° 2013 me inspira duas observações. Uma tem a ver com a forma e a outra, com o fundo.

Formulação inadequada Estadão, 17 dez° 2013

Formulação inadequada
Estadão, 17 dez° 2013

A forma
Suponho que todos entendam quando o jornal apregoa que Haddad «diminui idade». Mas, convenhamos, a formulação é tortuosa. Há maneiras mais convenientes de descrever o fato. No fundo da lógica, por mais poderes que tenha, o prefeito da megalópole jamais logrará «diminuir» a idade de ninguém. Nem aumentá-la, evidentemente.

Todos dirão que «a nova estrada diminui o percurso». É forma legítima, dado que a distância entre o ponto de partida e o de chegada realmente diminuiu. Diremos também que, devido à queda de uma barreira, o percurso aumentou, ou seja, encompridou, alongou-se, obriga os viajantes a percorrer maior número de quilômetros. A forma respeita o fundo.

Já quando nos referimos a um ponto determinado do dia, do mês, do ano ou da vida de alguém, os verbos diminuir e aumentar caem mal. Veja só. Se, por uma razão qualquer, o avião que devia decolar à 8 horas tiver de decolar às 7 horas, ninguém dirá que o horário foi «diminuído». O vice-versa também vale. Se o avião das 7h sair às 8h, não vale dizer que o horário foi «aumentado».

No caso do primeiro avião, diremos que o horário foi adiantado, antecipado, avançado. No segundo caso, melhor será dizer que o voo foi atrasado, recuado, protelado. A língua oferece oportunidades múltiplas de escolher um verbo adequado.

Pois o caso da idade «diminuída» pelo prefeito segue a mesma lógica. Ao estender a cidadãos de 60 anos o benefício que já era concedido aos mais maduros, o mimo estará sendo adiantado, antecipado, avançado.

A chamada estará mais bem escrita assim: «Idade para viagem gratuita de idoso será antecipada». Todos entenderão, e a lógica agradecerá.

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O fundo
Esquecendo minúcias estilísticas, tenho, como cada um, minha opinião pessoal quanto a esse benefício. É possível que não seja compartilhada por muita gente, que cada um enxerga com seus próprios óculos.

A velhice, ainda que um marketing desjeitoso lhe tasque o horripilante e hipócrita epíteto de «melhor idade», não costuma ser o período mais agradável da vida. Longe disso.

Sensível diminuição da capacidade física, aumento da fragilidade, sentimento de insegurança são atributos ligados ao passar dos anos. Não precisava juntar mais um «benefício» que soa mais como estigma. Em princípio, o sujeito não empobrece pelo simples fato de ter envelhecido.

Que se concedam benefícios pecuniários aos necessitados, acho certo. O que me perturba é que se associe velhice a pobreza. Deve-se conceder desconto nas passagens ― até gratuidade, se esse for o desejo dos cidadãos ― a quem demonstre estar vivendo em condições financeiras precárias. Aos velhos, já lhes bastam os inconvenientes da idade. Chega a ser ofensivo pespegar-lhes automaticamente a etiqueta de necessitados.

No fundo, o ideal mesmo é que cada um possa prover dignamente a seu próprio sustento, sem depender de favores especiais da comunidade. Mas ainda temos um bom caminho pela frente até chegar lá. Não dá para antecipar, nem adiantar, nem avançar.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

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