Coisas estranhas

José Horta Manzano

É grande a influência exercida pela gíria da malavita portenha ― o lunfardo ― sobre a fala brasileira. Em dez° 2012, escrevi um artigo sobre o assunto. Está aqui no blogue, para quem perdeu.

Meu atenciosos leitores já devem ter-se dado conta de que tenho grande interesse por línguas e, principalmente, pelas relações e pelo entrelaçamento entre elas. Acho fascinante constatar a solução que cada povo encontra para suprir seu estoque de palavras quando lhe falta alguma.

É proibido colar

É proibido colar

Há casos em que o termo estrangeiro é importado na forma original, sem mudar uma letra. A palavra vinda de fora pode também, às vezes, ser adaptada à forma ou à fonética da língua que a recebe. Há casos ainda em que nova palavra é criada para nomear a novidade. Conquanto haja línguas mais criativas que outras, todas se valem de todos os métodos: cópia, adaptação, criação de novo termo. Cada caso é um caso.

Fui, durante uns 20 anos, assinante da revista Veja. Nos tempos pré-históricos em que não havia internet, era uma das raras maneiras de manter vivo o cordão umbilical que saía daqui e desembocava em terra tupiniquim. Embora chegassem com atraso de uma ou duas semanas, as notícias vinham. Não fosse isso, o divórcio se teria consumado. De uns dez anos para cá, o advento da rede sacudiu as comunicações. Receber informação sobre fatos ocorridos duas semanas antes deixou de fazer sentido nestes tempos de transmissões ao vivo. Cancelei minha assinatura.

Contei tudo isso para chegar ao assunto de hoje. Dois dias atrás, recolhi na rede um artigo sobre a influência da gíria argentina na fala brasileira. Em meio a passeio despretensioso, encontrei-o no blogue de Ricardo Setti, alojado no site da revista Veja. O escrito é atribuído a José Roberto Guzzo, medalhão da revista há 45 anos. É justamente o articulista que, semana sim, semana não, escrevia o texto da última página, alternando com Pompeu de Toledo ― não sei se o regime continua. Transcrevi o artigo neste blogue sem esquecer de lhe dar o devido crédito, evidentemente.

Semana passada, um amigo gaúcho, conhecedor de meu interesse por relações linguísticas, me tinha sugerido que desse uma espiada numa entrevista dada por um professor a uma emissora de tevê do Rio Grande. O entrevistado tecia justamente comentários sobre a influência do lunfardo no falar nosso. Não tive tempo de seguir a sugestão naquela hora. Os dias se passaram, e só hoje fui conferir.

O vídeo traz a edição de 15 de outubro do programa Jornal da Pampa, emissão diária da TV Pampa. Quem quiser dar uma olhada vai encontrar o vídeo aqui no youtube.  Era dia do professor. A âncora do programa estava recebendo vários convidados ilustres, entre os quais o professor Jarbas Lima, advogado, político e professor universitário, um figurão.

É proibido colar

É proibido colar

Levei um susto. Lá pelo minuto 13:30, Jarbas Lima realmente discorre sobre as marcas de tingimento que nosso falar guardou do lunfardo. Observador que sou, notei também que certas expressões utilizadas pelo professor Lima foram reproduzidas ipsis litteris no artigo de Guzzo. «Os brasileiros somos os maiores importadores de palavras argentinas» é a fala inicial do professor, como também consta da introdução do artigo da Veja. Para simbolizar a chegada (de navio) do vocabulário portenho ao Brasil, o professor Lima menciona o porto de Santos e a Praça Mauá, no Rio de Janeiro. Guzzo usa exatamente a mesma metáfora.

Mas o mais surpreendente é a relação de palavras platinas utilizadas no nosso dia a dia. As palavras citadas pelo professor Lima são: otário, afanar, engrupir, embromar, cambalacho, bacana, bronca, fajuto, punguista, fuleiro, grana, gaita, escracho, cana, tira, lábia, patota, cabreiro, pirado, campana, mina, barra-pesada. O jornalista Guzzo cita exatamente as mesmas, declamadas na mesmíssima ordem.

Para mim, ficou evidente que um dos dois havia decalcado a ideia do outro. O programa gaúcho foi ao ar no dia 15 de outubro ― conforme comprova o vídeo do youtube. A revista Veja só foi publicada quatro dias depois. Não é difícil inferir qual é o original e qual é cópia.

Não se pode reinventar a roda diariamente. As ideias que temos são necessariamente produto da informação que recebemos. Mas é importante fazer a diferença entre um artigo inspirado em alguma ideia e uma transcrição do pensamento de alguém. O fato de o artigo não ter citado a fonte é particularmente deselegante. O jornalista demonstrou que realmente acredita no fecho de seu próprio texto: o Brasil é um país de otários.

Interligne 18cResumindo:

Meu artigo “Lunfardo”, de 19 dez° 2012
Programa Jornal da Pampa de 15 out° 2013
Artigo de J.R.Guzzo transcrito no blogue de Ricardo Setti, 19 out° 2013
Artigo de J.R.Guzzo transcrito neste blogue em 20 out° 2013

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

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