Autolouvação

José Horta Manzano

Muita gente acredita que certos lugares têm poderes mágicos. Há centenas de relatos de curas milagrosas na gruta de Lourdes. Nos anos 70, alguns visitaram Katmandu e lá encontraram a iluminação. No Brasil, temos pelo menos um desses sítios onde acontecimentos extraordinários têm lugar. Fica bem perto da cidade de São Paulo, exatamente no campus da Universidade Federal do ABC. Estes dias, de 15 a 18 de julho, está-se realizando lá um seminário sobre a política externa brasileira dos últimos 10 anos. Os palestrantes são todos gente fina: Celso Amorim, Antonio Patriota, o inefável Aurélio Garcia e ― last but not least ― o Lula, nosso messias em pessoa. Considerando os palestrantes, a reunião periga ser um mero aborrecido exercício de autolouvação.

A Folha de São Paulo já reportou o desempenho de Patriota, o atual ministro das Relações Exteriores e de Amorim, seu predecessor no cargo ― exatamente aquele que empurrou o ingênuo presidente de então nos braços de dirigentes estrangeiros de nebulosa reputação.

Patriota falou logo na noite de segunda-feira. Previsivelmente, cobriu de pétalas de rosas a política exterior de seu predecessor. Num contorcionismo verbal, disse acreditar que a aproximação do Brasil com países de duvidosa respeitabilidade foi um passo importante. Afinal, dez anos de esforço valeram a pena: o Planalto conseguiu fazer que um cidadão brasileiro fosse designado diretor da OMC ― Organização Mundial do Comércio! Tout ça pour ça?, diriam os franceses, todo esse esforço para um resultado tão magrinho?

O Ministério das Relações Exteriores tem por função precípua fazer política de Estado. Entre todos os ministérios, deveria ser o mais descolado do governo de turno, o menos vinculado a políticas públicas. Está lá, em princípio, para defender os interesses nacionais do Brasil, não as conveniências do inquilino que ocupa temporariamente o Palácio do Planalto.

Ao final do pronunciamento, jornalistas provocaram o senhor Patriota sobre esse tema. Ele saiu-se pela tangente, dizendo que estava ali representando o Estado brasileiro. Deu como prova o fato de «não ter mencionado em momento algum o nome de um partido político» . Só faltava.

O ministro deve ter voltado para casa com um gosto agridoce na boca.

Dilma Rousseff e Evo Morales

Dilma Rousseff e Evo Morales, by R. Stuckert F°

Na noite seguinte, foi a vez do senhor Amorim, fiel ministro de Relações Exteriores durante 8 anos, no tempo do Lula. Foi aí que a magia do lugar começou a agir. Num lampejo de inesperada sinceridade e de inconcebível candura, o ex-chanceler contou coisas do arco da velha, daquelas que a gente tem dificuldade em acreditar.

Contou que, dois anos atrás, visitou a Bolívia a bordo de um avião militar brasileiro. Surpreendentemente, revelou que o aparelho da FAB tinha sido vasculhado a mando das autoridades locais. Disse também que sua autorização não tinha sido solicitada. Disse ainda ― pasmem! ― que ninguém se preocupou em pô-lo a par do acontecido.

Em outros tempos, isso seria um casus belli. Uma afronta dessa magnitude à honra nacional não poderia ser lavada senão com uma declaração de guerra.

Hoje em dia, ironicamente o Brasil se junta ao coro dos hispano-americanos para protestar contra o desaforo que europeus fizeram à Bolívia ao revistarem o avião de Evo.

Ainda bem que o senhor Patriota garantiu que o Itamaraty não desviou de sua rota e continua fazendo política de Estado. Portanto, insinuar que temos engolido essas cobras e lagartos para alinhar a política externa do Brasil com a linha ideológica do partido de governo é ato de má-fé.

Seria petulante de minha parte pensar o contrário.

Obs:
Nova indiscrição nos revela que os aviões da FAB revistados pelos bolivianos foram três. Veja aqui.

Um pensamento sobre “Autolouvação

  1. Pingback: Casus belli, ma non troppo | Brasil de Longe

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