O joio, o trigo & outras considerações

Carlos Brickmann (*)

O joio é um vegetal parecidíssimo com o trigo, que nasce nos mesmos lugares. Só que, em vez de benéfico, é daninho. Quem planta trigo precisa separar o joio, para não estragar a colheita. Quem faz jornalismo, também – embora um intelectual e político americano, Adlai Stevenson, duas vezes candidato à Presidência (e duas vezes derrotado), costumasse dizer que a função de um editor é separar o joio do trigo, e publicar o joio.

Hem?
Quando Winston Churchill tinha sete anos, seu professor de Latim quis ensinar-lhe a declinação de “mensa” – mesa. Parou no vocativo, quando Churchill quis saber o que aquilo significava. O professor explicou: “É a forma que você deve usar quando falar com uma mesa”. O garoto garantiu ao professor que jamais conversaria com uma mesa. O professor se ofendeu e suspendeu-o. E Churchill, numa frase que deve ser lembrada, disse que nunca mais se interessaria por grego, latim ou outras línguas: queria aprender inglês. Queria ser o melhor em sua própria língua.

Sir Winston Churchill

Sir Winston Churchill

Pois é. Nos nossos meios de comunicação, o profissional que fale várias línguas é valorizado (o que é ótimo). Mas parece que houve um certo esquecimento: é ótimo falar alemão, chinês, inglês, francês e espanhol, desde que o conhecimento do português também seja obrigatório. E não está sendo: em grandes jornais, que já prezaram a qualidade do texto, diz-se que o carro “o pertencia”, coisas do tipo. Um cavalheiro se apresenta como “acessor parlamentar e acessor (…)” da Prefeitura de uma grande cidade (ou talvez “sidade”).

O recorde, entretanto, vem numa grande matéria sobre a morte de uma grande artista, Tomie Ohtake. Dizia-se que a Tomie era acompanhada por um “secto”. Deu trabalho, mas enfim foi possível chegar a uma conclusão: o que deveria estar escrito, provavelmente, era “séquito”.

O pai do primo do avô
Um antigo (e excelente) livro, Introdução ao Jornalismo, de Frazer Bond, que o notável Woile Guimarães mandou este foca estudar, já ensinava há mais de 50 anos que parentesco só é notícia se tiver algo a ver com os acontecimentos. Em “Filho do ministro vende facilidades”, o parentesco provavelmente tem a ver com os fatos. Mas em “Filho do ministro é preso em roda de crack” é provável que o parentesco nada tenha a ver com o evento. O responsável que responda sozinho por seus atos, poupando o parente.

O livro já ensinava isso há mais de 50 anos. Mas quem disse que todos aprenderam? Frases apanhadas em jornais, a esmo, nos últimos dias:

Interligne vertical 11a1 – Parentes de filha de (…) brigam em hotel e polícia aparta
2 – Primo de (…) foi preso em flagrante na Operação Lava Jato
3 – Filho de (…) beija moreno em camarote na Bahia

Nos três casos, o parentesco não tem nada a ver com os fatos. Entra apenas para atrair o leitor incauto. Num deles, o terceiro, se o rapaz beija o moreno ou o loiro num camarote de Carnaval o problema é dele. No caso, nem há o que noticiar, a não ser a busca de um factóide sensacionalista.

Legenda publicada num caderno especializado em automobilismo:
“Audi R8 teria sido destruído por mulher enfurecida após descobrir que, supostamente, havia sido traída pelo marido”.
Não deixa de ser uma novidade: a descoberta de uma suposição.

Da internauta Rita Xavier:
“Ninguém pode dizer que o ditador da Guiné Equatorial não investe em escola.”

O grande título
Uma bela colheita esta semana. Há manchetes para todos os gostos:

Interligne vertical 11bdas enigmáticas:
“Tamires corta alface em silêncio”

às de duplo sentido:
“De olho no folião, ambulantes inflacionam pau de selfie em SP”

uma frase notável da presidente Dilma, que mais uma vez diz exatamente o contrário do que pretendia:
“Nunca deixamos de esconder que era 4,5%”

uma manchete notável:
“Mutirão propõe salvar Sistema Cantareira com cultivo e produção de água”
Quanto mais se vive, mais se aprende: quem é que sabia que a água pode ser cultivada?

e o grande título:
“Metrô de NY tem bactérias nojentas, mas ninguém morreria por lambê-lo”
Quem será o depravado que quer lamber o Metrô de Nova York?

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais.

Forças ocultas

by Antônio Gabriel Nássara (1910-1996) caricaturista carioca

by Antônio Gabriel Nássara (1910-1996)
caricaturista carioca

Antigo ministro e embaixador, José Aparecido de Oliveira aceitou debater com estudantes, nos anos 80, sobre os acontecimentos de 1961, quando o presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo depois de tê-lo exercido por sete meses. Aparecido tinha sido secretário de Jânio.

Um rapaz muito agressivo e com a arrogância própria da idade criticou o gesto do antigo presidente – atribuído a “forças ocultas” – e declarou:

– Eu nunca teria feito isso!

Aparecido não perdeu a chance:

– Meu filho, você pode até estar certo, mas esse problema você nunca vai ter de enfrentar.

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Reprodução do original publicado pelo jornalista Cláudio Humberto in Diário do Poder,

Nota deste blogueiro
Apesar do que acreditam muitos, a carta renúncia de Jânio Quadros não mencionava “forças ocultas”, mas “forças terríveis”.

Aproveitando enquanto ainda pode

 

by Santo, desenhista mineiro

by Santo, desenhista mineiro

 

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by Iuri Gama Santos, desenhista fluminense

by Iuri Gama Santos, desenhista fluminense

 

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by Eduardo dos Santos Reis Evangelista, desenhista mineiro

by Eduardo dos Santos Reis Evangelista, desenhista mineiro

 

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by Neltair Rebés Abreu, desenhista gaúcho

by Neltair Rebés Abreu, desenhista gaúcho

 

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by Samuel Rubens de Andrade, desenhista pernambucano

by Samuel Rubens de Andrade, desenhista pernambucano

 

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by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

 

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by Neltair Rebés Abreu, desenhista gaúcho

by Neltair Rebés Abreu, desenhista gaúcho

 

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